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Curtailment no Brasil: riscos e desafios para projetos de energia renovável

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Escrito por: Horiens - 27/05/2026

Levantamento divulgado pela imprensa aponta que os cortes na geração renovável chegaram a 20,6% em 2025, evidenciando gargalos estruturais na transmissão e reforçando a importância da gestão de riscos no setor elétrico.

A expansão acelerada das fontes renováveis consolidou o Brasil como um dos protagonistas globais da transição energética. Esse crescimento, porém, trouxe um fenômeno que passou a ocupar espaço central no debate regulatório, técnico e empresarial: o curtailment.

Mas, afinal, o que é curtailment e por que ele vem crescendo no Brasil?

O termo refere-se à redução ou interrupção forçada da geração de energia, mesmo quando há capacidade instalada disponível e condições favoráveis de geração, como ventos intensos ou alta incidência solar. Em outras palavras, trata-se de energia pronta para ser gerada, mas que não pode ser escoada para o sistema elétrico.

Na prática, o corte é determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por razões como limitações na rede de transmissão, restrições operativas para garantir a segurança do sistema, congestionamentos regionais ou desequilíbrios momentâneos entre oferta e demanda. De forma geral, o curtailment pode ser classificado em três categorias principais:

  1. Energética: ocorre quando há excesso de oferta de energia em relação à demanda no sistema, especialmente em períodos de alta geração renovável ao longo do dia, fator associado ao crescimento da Geração Distribuída (GD), como os sistemas fotovoltaicos residenciais e comerciais.
  2. Confiabilidade do sistema: ocorre quando o ONS precisa limitar ou interromper a geração para preservar a estabilidade e a segurança operativa do sistema elétrico, diante de oscilações, intermitência das fontes renováveis ou riscos de sobrecarga.
  3. Elétrica: está relacionada a restrições físicas na infraestrutura do sistema, como indisponibilidade de linhas de transmissão, falhas em equipamentos ou eventos inesperados, como incêndios e explosões em subestações.

O que antes era um evento pontual tornou-se um desafio estrutural. Em 2025, foram registrados no Brasil cortes que atingiram cerca de 20,6% de toda a oferta de energia solar e eólica que poderia ter sido gerada, implicando um volume expressivo de energia limpa que deixou de ser injetado no sistema. Segundo reportagem do jornal O Globo, com base em levantamento da consultoria Volt Robotics a partir de dados do ONS, as perdas econômicas associadas a episódios de curtailment somaram aproximadamente R$ 6,5 bilhões no período.

Desafios estruturais

Parte deste cenário decorre de um descompasso estrutural: a expansão das usinas eólicas e da geração solar em diferentes regiões ocorreu em ritmo mais acelerado do que a ampliação das linhas de escoamento, somada à expansão da Geração Distribuída (GD), fatores que resultaram em gargalos estruturais e empresariais hoje materializados em cortes recorrentes.

Os números refletem a realidade de que o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais na transmissão e na integração da geração renovável ao sistema elétrico, um cenário que tende a se intensificar caso os investimentos em infraestrutura não acompanhem o crescimento da capacidade instalada”, explica Carlos Eduardo Lichtenberger Jr., diretor de Riscos e Seguros de Infraestrutura e Geração de Energia da Horiens.

Um fenômeno global

O curtailment não ocorre apenas no Brasil. Mercados com alta penetração de renováveis enfrentam desafios semelhantes. Na China, províncias com forte expansão de capacidade solar e eólica registraram taxas elevadas de restrição por excesso de oferta e limitações de escoamento ou da demanda por energia.

No Reino Unido, relatórios indicaram que cortes na geração eólica acarretaram custos bilionários às operadoras em períodos de baixa demanda. Já na Califórnia, nos Estados Unidos, estudos setoriais apontam que picos de produção solar vêm resultando em episódios recorrentes de redução de geração.

Esses exemplos mostram que o curtailment se intensifica em sistemas com alta penetração de renováveis quando a infraestrutura de transmissão, os mecanismos de flexibilidade e o armazenamento não evoluem no mesmo ritmo”, completa Carlos Eduardo Lichtenberger Jr.

Por que o ONS corta energia de fontes eólicas e solares, apesar de essas fontes serem limpas e mais benéficas para o meio ambiente?

Energias renováveis dependem de variáveis naturais para sua geração. Sol e vento não estão disponíveis de forma contínua e podem apresentar maior variabilidade justamente em momentos de maior demanda do sistema. Para garantir previsibilidade e evitar riscos de desabastecimento, o ONS precisa contar com fontes capazes de entregar energia de forma estável nos momentos críticos.

Nesse contexto, priorizam-se as fontes hídricas, cujos níveis de geração estão associados aos reservatórios ou ao fluxo hidrológico (no caso das usinas fio-d’água), além das termelétricas e nucleares, que oferecem maior controle e previsibilidade ao sistema elétrico.

Quando a transição energética vira risco financeiro

Se, do ponto de vista técnico, o curtailment é uma medida de proteção do sistema, sob a ótica empresarial ele representa perda direta de receita. Cada megawatt-hora que deixa de ser gerado é uma oportunidade de faturamento não realizada, especialmente em projetos estruturados com financiamento de longo prazo e compromissos contratuais rígidos.

Segundo Vanessa Falco, diretora de Riscos e Seguros para Energy, Oil & Gas da Horiens, o tema precisa ser analisado de forma estratégica. “A transição energética exige investimentos significativos. Quando o curtailment entra na equação, ele altera projeções de receita, fluxo de caixa, indicadores de retorno e o risco de descumprimento de obrigações financeiras e contratuais. Isso impacta financiadores, investidores e a competitividade do projeto”, afirma.

O risco deixa de ser apenas operacional e passa a incorporar dimensões financeiras e até reputacionais, especialmente em um ambiente de crescente pressão por desempenho ESG e previsibilidade regulatória. Vanessa explica que os cortes de geração adicionam complexidade à gestão de riscos. “É preciso avaliar como contratos, garantias e estruturas de seguro estão preparados para lidar com esse cenário.”

Curtailment e o desafio para o setor de seguros

Embora nem todos os casos sejam seguráveis, o mercado vem evoluindo na discussão de cláusulas específicas em apólices de lucros cessantes, mecanismos de compartilhamento de risco em contratos, modelagens mais sofisticadas de receita e integração entre engenharia de riscos e estruturação financeira.

Para Vanessa, a agenda ESG e a transição energética seguem como imperativos globais, mas precisam estar acompanhadas de sustentabilidade econômica. “Entender e estruturar os riscos associados ao curtailment é parte essencial dessa equação. Ao trazer o debate para a ótica de riscos e seguros, a modelagem adequada e o desenho inteligente de proteção são fundamentais para que a transição energética seja, além de sustentável, resiliente e financeiramente sólida.”

O grande desafio está em equilibrar viabilidade econômica, previsibilidade operacional e alinhamento regulatório.

BESS (Battery Energy Storage System): solução estratégica para equilibrar oferta e demanda

Um dos pontos centrais nesse debate é o papel dos sistemas de armazenamento de energia, especialmente as baterias de larga escala, conhecidas como BESS (Battery Energy Storage Systems), como solução estratégica para o equilíbrio entre oferta e demanda.

Esses sistemas permitem armazenar energia gerada em momentos de baixa demanda ou restrição na rede para posterior injeção no sistema, reduzindo o impacto dos cortes e aumentando a eficiência do aproveitamento da geração renovável.

Do ponto de vista técnico, o armazenamento amplia a flexibilidade operacional, contribui para a estabilidade da rede, pode reduzir a necessidade de despacho de usinas térmicas em momentos críticos e melhora a previsibilidade de receita dos empreendimentos.

Carlos E. Lichtenberger Jr. destaca que se trata de uma solução com grande potencial de equacionar o risco do curtailment, porém ainda intensiva em capital e associada a questões relacionadas aos riscos tecnológicos das próprias baterias, tanto sob a ótica de vida útil quanto de riscos patrimoniais.

A decisão de investir em baterias exigirá uma análise aprofundada de viabilidade, abordando, no Business Plan, aspectos como a qualidade e as garantias dos fornecedores, em linha com o modelo financeiro, a estrutura de financiamento e a alocação de riscos. É um movimento estratégico que demanda avaliação técnica e financeira consistente, mas que se mostra uma solução promissora.”

Naturalmente, outros riscos empresariais surgirão à medida que se avalia a implementação das BESS. “Podemos citar o risco modular, por exemplo, em que há diferença entre o preço da energia no momento em que é gerada e armazenada e o preço no momento em que é despachada. Nesse cenário, pode haver um custo de oportunidade relevante para as geradoras, já que, em aproximadamente 90% dos casos, os riscos são assumidos por elas em seus PPAs”, completa.

Rumo a uma transição energética mais resiliente

Diante desse cenário, o avanço das energias renováveis no Brasil passa a exigir não apenas a expansão da capacidade instalada, mas também a evolução da infraestrutura de transmissão, o aprimoramento regulatório e, sobretudo, o fortalecimento da gestão estratégica de riscos.

À medida que o curtailment se consolida como um tema estrutural da transição energética, empresas, investidores e financiadores são chamados a incorporar essa variável em suas decisões estratégicas e nos modelos de negócio.

A avaliação especializada de riscos, a modelagem financeira adequada e a estruturação de soluções de seguros e garantias tornam-se ferramentas fundamentais para aumentar a previsibilidade dos projetos e fortalecer sua resiliência. Mais do que um desafio técnico, trata-se de garantir que o crescimento da matriz renovável ocorra de forma equilibrada, segura e economicamente sustentável.

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